Aquele momento em que você precisa arejar um pouco...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

AUTO-AJUDA NÃO AUXILIA QUEM REALMENTE PRECISA



A capa da Veja desta semana apresenta matéria sobre a praga da auto-ajuda, que consome espaço nas prateleiras das livrarias, e provavelmente um monte de gente vai encher o peito pra falar bem desse troço, mais ou menos assim; “Tá vendo? Até saiu na capa da Veja!...” como se isso tivesse algum mérito ou tornasse a coisa séria ou científica.




Então, antes que você vá à livraria mais próxima gastar sua grana e deixar os autores ainda mais milionários, leia um pouco mais...
Repetir frases positivas como "Sou uma pessoa querida" ou "Vou ter sucesso" faz com que algumas pessoas se sintam piores em relação a si mesmas, ao invés de elevar a autoestima, destaca um estudo divulgado nos Estados Unidos.


"Desde pelo menos a publicação do livro de Norman Vincent Peale 'O poder do pensamento positivo' (1952), os meios de comunicação têm estimulado as pessoas a dizer coisas favoráveis sobre si mesmas", afirma o estudo coordenado por psicólogos canadenses, publicado na revista Psychological Science.


O estudo cita uma revista popular de autoajuda que recomenda aos leitores: "Testem recitar: 'Sou poderoso, sou forte e nada neste mundo pode me deter'". Mas o conselho não funciona para todos.


As frases positivas sobre si mesmo fazem com que as pessoas que já se sentem mal em relação a si mesmas não fiquem melhor, e sim pior, conclui o estudo coordenado pelos psicólogos Joanne Wood e John Lee, da Universidade de Waterloo, e Elaine Perunovic, da Universidade de New Brunswick.


No estudo, os especialistas pediram a pessoas com baixa e alta autoestima que repetissem a frase "Sou uma pessoa querida", para em seguida medir os estados de ânimo e os sentimentos dos participantes. Eles detectaram que os indivíduos que começaram o estudo com baixa autoestima se sentiram piores depois de repetir a frase.


"Penso que o que acontece é que quando uma pessoa com baixa autoestima repete pensamentos positivos, provavelmente tem pensamentos contraditórios", declarou Wood à AFP.


"Portanto, se afirmam 'Sou uma pessoa querida', podem estar pensando 'Bem, nem sempre sou querido' ou 'Não sou querido neste sentido' e estes pensamentos contraditórios podem fazer transbordar os pensamentos positivos", explicou.


Apesar dos pensamentos positivos parecerem efetivos quando integram uma terapia mais amplia, sozinhos tendem a reverter o efeito que supostamente devem ter, segundo Wood.
O psicólogo afirma que os livros, revistas e programas de TV de autoajuda devem para de dizer às pessoas que apenas a repretição de um mantra positivo levantará a autoestima. "É frustrante para as pessoas quando tentam e não funciona".



Os psicólogos sugerem que pensamentos positivos fora da realidade, como “eu me aceito completamente”, podem causar pensamentos contraditórios em pessoas com a auto-estima baixa. Estes pensamentos negativos podem, assim, sobrepor os pensamentos positivos.
Os pesquisadores concluem no estudo que “A repetição de frases auto-afirmativas podem beneficiar algumas pessoas, mas produzem efeitos negativos naquelas pessoas que mais precisam do benefício”. [Science Daily]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

NATAL, TEMPO DE PAZ, AMOR E HIPOCRISIA...

Estão todos lá, gordos porém elegantes em seus ternos bem cortados, suas mulheres cuidando das crianças que correm pela sala, as tias trazendo os pratos para a ceia, os tios contando lorotas sobre seus passados, as vovós e vovôs dormindo nas cadeiras nos cantos e as famosas canções natalinas preenchendo o ambiente alegre e festivo.

Todos se abraçam, desejam os mais elevados sentimentos de paz, amor, saúde e felicidade uns aos outros.

Imagine essa festa natalina numa “famiglia” de mafiosos.

Não há como negar: são criminosos. Pessoalmente talvez nunca tenham matado alguém, jamais empunharam uma arma ou sequer um canivete. Mas foram mandantes de diversos crimes. Seu dinheiro comprou fidelidade e obediência às suas ordens de assassinatos, seqüestros, roubos...

Sobre aqueles sorrisos e sinceros desejos de paz e felicidade pairam cadáveres.
Sobre você também.

Sim, sei, você não é mafioso, claro, mas sobre sua mesa também jazem cadáveres. Pedaços deles.

São perus, lombos, tenders, patos, cabritos, leitões e outros animais mortos sob seu comando. Não se engane: no caso deles, você é o Chefão que não põe a mão na arma, mas paga para matar.

Paga ao açougueiro, que paga ao frigorífico, que paga à fazenda, que paga ao funcionário para enfiar um facão no pescoço de uma vaca, eletrocutar um porco, degolar um peru.

Em sua feliz festa natalina, na efusão de desejos de paz e felicidade, sob seu comando animais tiveram vidas miseráveis, foram transportados em péssimas condições, muitos morreram no caminho, foram levados aos abatedouros, torturados, esfolados, escalpelados e retalhados com muita dor e desespero num banho de sangue.
Mas nada disso você vê sobre sua imaculada toalha branca. Eles foram prévia e convenientemente transformados naquele naco de carne sobre sua mesa decorada com motivos natalinos.

Como desejar a paz enquanto se financia o inferno? Como sonhar com felicidade quando se estimula o sofrimento? Como falar sobre boa saúde quando se é responsável por tantas mortes?

Finja o quanto quiser, negue o quanto puder. Engane a si mesmo.

E assim, com sorriso nos lábios, deseje feliz natal a todos.


Para saber um pouco da verdade por trás de um peru de natal, leia:
http://www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=1960&Itemid=144

terça-feira, 24 de novembro de 2009

HIPERSUPERMEGAULTRA CONECTADO


Enquanto e-mails, não param de chegar, você se informa dos assuntos na intranet da empresa onde trabalha. Como lá a chefia resolveu bloquear acessos às comunidades virtuais, você se atualiza pelo celular mesmo, preferencialmente no banheiro, quando o chefe não está vendo, ou durante o almoço.

Então você chega em casa depois de enfrentar aquele trânsito infernal do mundo real e imediatamente corre para o computador. Dá uma olhada no LinkedIn pra ver se não surge uma oportunidade em outra empresa e aproveita para ampliar seus contatos profisisonais no Via6. Seus colegas de MBA no Facebook aguardam uma resposta sua enquanto no Orkut aquele primo que mora em outro estado tem algo pra te contar.
Então você "sobe" umas fotos das suas últimas férias para o Flickr enquanto atende uma chamada no Skype na qual um colega pergunta por que você ainda não o segue no Twitter e você responde que não teve tempo pois estava atualizando seu site pessoal e tinha virado a madrugada numa lista de discussão. Com tudo isso, acabou esquecendo também de postar aquele artigo em seu Blog...

Se você não vive numa ilha deserta sem energia elétrica e sem nenhum contato com o resto do mundo, então com certeza deve estar em um ou mais dos ambientes virtuais mantendo contato com outros conectados, tornando-se sempre disponível.

LinkedIn, Facebook, Via6, Orkut, weblogs, fotologs, Flickr, Twitter, blogs, MySpace, UOLK,
Windows Live Space, sites pessoais, listas de discussão, e-mails e mais e-mails, Skype, Nimbuzz, telefone celular... Só pra mencionar os mais conhecidos. A lista completa é imensamente maior.
Estamos hoje brincando de Deus, ao menos no que se refere à onipresença. Queremos, ou melhor, precisamos estar em tantos lugares virtuais diferentes ao mesmo tempo que acabamos por ficar num único lugar real por muito tempo: em frente ao computador.

Não, esta não é mais uma crítica ao mergulho no mundo virtual em detrimento do mundo real. Acho essa divisão meio besta. Afinal, "do outro lado do teclado" há um humano como você. O problema mesmo é o tempo que a gente perde (alguns dirão "investe") nessas diversas conexões.

Eu tentei concentrar tudo num só lugar, agrupar todos os meus contatos e interesses, mas não demorou muito para alguém me convidar para outra "comunidade" X.

OK, pensei, estar em duas não trará problema. Mas daí outro c
olega enviou convite para participar do grupo Y. Por e-mail recebi uma quase intimação para instalar o Skype. Onde já se viu ainda falar por telefone? E em seguida me perguntam como ainda não estou no Twitter?..

Uma vez dentro, ah... Em pouco tempo você já não consegue mais deixar de ao menos dar uma espiada no que anda rolando num ou noutro canto virtual, precisa se inteirar dos papos, verificar oportunidades, fechar negócios, marcar encontros, matar saudades.

A LER (lesão por esforço repetitivo) nos pulsos em breve migrará para os dedos que se espremem nos minúsculos teclados dos celulares. Apesar de eliminar fronteiras e distâncias, o mundo virtual trará mais problemas oculares pois o foco de nossos olhos está sempre muito próximo, ali no monitor ou na telinha. Muito tempo sentado trará mais celulite para as mulheres e mais barriga para os homens...

Ou não!

Em breve, o deslumbramento com essas novas tecnologias passará, ficaremos mais seletivos e usaremos somente aquilo que realmente nos traz algum retorno e não pura perda de tempo, papos furados, informação inútil.

Se o mundo não acabar em 2.012 (ê mania besta essa de acabar com o mundo), quem viver, verá.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PALPITEIRO DE PLANTÃO

Eu estudei Publicidade e Marketing. Estudei bastante, mas mesmo assim dou bolas fora, como todos os especialistas por aí, exceto Kotler, claro.

Lembro que a primeira vez em que me deparei com a revista Caras torci o nariz e perguntei a mim mesmo quem iria querer comprar uma revista como aquela. Fútil, rala, superficial, falando da vida dos ricos e famosos em poses forçadas nas fotos em castelos da Europa, exibindo sorrisos clareados ou jaquetados em dentistas careiros.

Eu havia esquecido dos wannabes, aquele consumidor classe média que sonha em ser como os fotografados nela. São milhares, milhões provavelmente.


Errei feio também em relação ao BBB. Pensei que não passaria da segunda temporada. Afinal, quem iria querer assistir a um bando de gente tosca, porém bonita, falando bobagens em Português ruim? Até teria alguma graça se fosse realmente um reality show, mas todo mundo sabe que não é. Tem produção e enredo, participações, atitudes e representação de personagens numa espécie de novela, porém de nível ainda mais baixo.


Superestimei o público telespectador, assim como o fiz quando estreou o Programa do Ratinho. Eu achava que era apenas um programete do tipo “pinga sangue” para classe D e E, mas me surpreendi quando os mesmos wannabes classemedianos, em jantares regados a prosecco, o tornaram Cult, dizendo que achavam engraçado, divertido, apenas curiosidade. A febre passou, mas não deveria nem ter pegado.


Mas eu também acerto, às vezes.


Quando parecia que o mundo todo estava mergulhando de cabeça no Second Life eu me sentia, mais uma vez, um estranho no ninho. Não via utilidade naquilo nem como poderia ser sucesso algo que dependia necessariamente de volume (de pessoas, usuários) num país de baixa renda em que o acesso a computadores e banda larga ainda é utopia para mais de 90% da população.


Zilhões de dólares investidos, diversas empresas acionaram seus departamentos de marketing para criar estratégias para adentrar ao mundo virtual e... Deu no que deu, ou seja, em nada, aqui e lá fora.


Na linha “uma onda” – que vai embora do mesmo jeito que chega - acertei quanto ao “O Segredo”. Veio como uma avalanche, todo mundo só falava naquilo e... Virou fumaça, ninguém lembra mais. Ainda bem.


Então chega o iPhone.

Inegável: a Apple, pelas mãos mágicas de seu mestre Steve Jobs, tem o mérito de ter se transformado em mito, como a Harley Davidson, algo que pouquíssimas marcas conseguem. Apesar de ambas não passarem incólumes nem vencerem testes comparativos com suas concorrentes, elas tem um carisma construído com talento extraordinário, insistência e muitos milhões em marketing.


O iPhone transformou o mercado, fez toda a concorrência correr para o touchscreen (que eu ainda acho que é pura melação de visor) e as mais diversas empresas do planeta a desenvolverem softwares compatíveis com o aparelho, tentando aparentar modernidade e avanço tecnológico na rabeira do celular da Apple. Mas isso foi há meses, vários meses...

No final de semana, em anúncio de uma página inteira de jornal, vi mais um aplicativo desenvolvido para iPhone, um tal de iLocal.


Ôpa! Péraí.


A febre do iPhone já passou. Sim, ainda há muitos que sonham com um aparelho daqueles mas, segundo números divulgados recentemente, no Brasil foram comercializados “apenas” 200 mil iPhones, pouco mais, pouco menos.


Ora, num país com quase um celular por habitante, ou seja, uns 170 milhões de aparelhos, o número de iPhones é ínfimo. Pode-se até considerar que seja um público diferenciado, um nicho de mercado, mas é um engano. Nesse mesmo nicho estão os felizes proprietários de Blackberries, Nokias, Palms, vários deles mais caros que o iPhone e, não consigo deixar de citar, muito melhores tecnicamente falando.


Porquê não desenvolver um aplicativo “para celulares” ao invés de “para iPhone”?


Se alguém tiver números que corroborem a validade (ROI) de criar coisas só para o iPhone, eu gostaria de ver.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O VALOR DAS COISAS

Numa certa mostra internacional, artistas corriam para preparar a exposição de suas obras antes da abertura para o público. Quadros pra lá, eletricistas, esculturas pra cá, marceneiros, instalações diversas sendo montadas a toque de caixa e faxineiros tentando deixar tudo em ordem.



Portas abertas pela manhã, no início da tarde alguns sites já exibiam artigos com opiniões de críticos e especialistas sobre as obras da exposição.


Sobre uma delas escreveram, com comentários repletos de filosofia, psicologia, muitas metáforas e elogios, que o artista baseava-se na vida cotidiana atual, no caos das cidades grandes e nos sentimentos aflitivos de seus moradores para criar suas instalações. Era um artista famoso e suas obras valiam uma grana preta.


Corria, porém, entre os funcionários, um comentário fortemente abafado pelos organizadores da mostra que o tal artista havia passado mal na noite anterior enquanto preparava sua instalação. Abandonando o local sem terminá-la, os faxineiros não tiveram dúvida: acreditando que “aquilo” eram sobras de alguma coisa qualquer, puseram-se a fazer seu trabalho e varreram boa parte da “obra” para o lixo e amontoaram outro tanto de tralhas num canto para que não atrapalhasse a passagem dos visitantes.


A “obra” tão elogiosamente comentada era, em verdade, trabalho dos faxineiros.


Noutro caso, um museu em Londres ou Paris, não me lembro bem, exibiu durante algum tempo um valiosíssimo quadro de um artista do século XVIII. Visitantes faziam enormes filas para ver o tal quadro e críticos babavam sobre a técnica das pinceladas, a profundidade e equilíbrio das cores e formas, sobre a prodigiosa mente criadora do artista.


Tudo ruiu quando especialistas, utilizando técnicas laboratoriais, descobriram que o quadro não havia sido pintado pelo autor que imaginavam, ou seja, era falso. Como mágica, o quadro que valia algumas centenas de milhares de euros passou a valer menos que o custo das tintas nele utilizadas. Zero, nada, foi pro lixo.


Com estes dois casos ocorreram-me algumas idéias sobre o valor das coisas. Tanto a instalação como o quadro, com tantas qualidades amplamente elogiadas, não tinham nenhum valor em si. O valor estava em quem fez, ou melhor, em quem imaginavam que havia feito.
Assim: se a instalação foi montada pelo tal diarréico, é artística e vale muita grana; se foi feita por faxineiros não vale nada. O quadro, que nada mudou de antes para depois da revelação, valia euros com muitos zeros à direita se tivesse sido pintado pelo tal artista mas, pintado por um Zé qualquer, não valia nada.


Entendeu? O que vale não é “o que”, mas “quem”.


É mais ou menos como, popularmente falando, ter ou não etiqueta original. Uma camiseta de marca X custa R$150,00 mas uma idêntica, comprada no Largo da Batata em Pinheiros, pode ser encontrada por R$20,00.


Eu tenho profunda implicância com Miró. Certa vez, quando suas obras estavam no MASP e o fato tomou a mídia por um bom tempo (demais), eu e meus colegas fizemos umas reproduções de suas obras. Algumas ficaram realmente muito próximas do original.


Falando sério: porque os quadros do Miró valem tanto dinheiro, uns rabiscos que se não me avisassem eu juraria que haviam sido feitos por uma criança de quatro anos com problemas motores, e os nossos não valiam nada?


Simples: porque ele se tornou “marca”, “etiqueta”. Isso alcançado, qualquer m... que ele fizer valerá uma big Sansonite cheia de dólares.


Há muitas possibilidades de explicações sobre como se faz isso, como alguém consegue colocar tremendo valor nas tranqueiras que faz. Invente a sua, assim como pintores, escultores, costureiros e designers inventam mirabolantes explicações sobre o que fazem.


Os rabiscos de minha sobrinha devem valer uma fortuna, basta que eu invista alguns minutos na criação de uma explicação metafísica sobre os garranchos e convença algum marchand. Pronto!


Muitos caem na conversa e pagam os olhos da cara por algo que, acidentalmente, um chimpanzé poderia fazer.


Para valorizar e dar alguma erudição a uma praça perto de onde eu trabalhava, empresas ao redor se responsabilizaram pela manutenção dos canteiros, da limpeza e, finalmente, decidiram colocar uma obra de certa artista plástica. Ela era artista plástica, mas sua obra era um grosso tronco de madeira natural colocado meio em pé, num ângulo de 45 graus em relação ao chão.


Bonito isso: um enorme toco de madeira inclinado. Isso, hoje, é arte. Isso é arte? Minha nossa...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Diz a lenda, ou melhor, a Bíblia, que o zé povinho se juntou para apedrejar Maria Madalena por que ela era adúltera e, nas horas vagas, prostituta. Era um método precursor do atual stone washed, só que pra lavar pecados e não calças jeans.
Provavelmente, entre os apedrejadores estariam alguns dos que se utilizaram dos serviços dela, mas naquele momento, levados pela animosidade da turba alucinada, entraram na malhação.

É um caso atualmente impensável e, além de considerado vandalismo cruel, poderia ser classificado como “fazer justiça com as próprias mãos”, afinal hoje temos instituições e representantes oficiais encarregados de punições quando as regras sociais são violadas.

Isso foi há quase dois mil anos segundo o tal livro, mas a lição ficou. E o povo não evoluiu nada.

A Maria Madalena da hora é representada por Geyse, uma garota cheinha de curvas que usava um minivestido rosa choque colado ao corpo. Não, ela não é – ao menos pelo que se sabe – adúltera nem prostituta, não vai estar numa nova edição da Bíblia nem queria lavar seu vestido à pedras mas, por azar dela ou por falta de tempo dele, nesta atualização do episódio Jesus não veio ao seu socorro fazer a famosa pergunta: “Que atire a primeira pedra...”.

Aliás, Jesus teve sorte nessa hora. Estivessem por ali sua mãe ou um português a pobre teria levado uma tijolada na testa. Explico: sua mãe, não a sua, a de Jesus, nunca errou no sentido de que nunca pecou (afinal, ele surgiu de uma imaculada conceição, não?!) e um português teria interpretado a pergunta como um desafio à sua pontaria...

Com o caso circulando por toda a imprensa mundial, resta pouco a acrescentar, mas fico horrorizado e temeroso quando ouço meninas e garotos da mesma faculdade, com seus vinte e poucos anos, fazendo comentários profunda e retrogradamente machistas e, mal disfarçadamente, incriminando Geyse. Fico ainda mais descrente no futuro da humanidade quando garotos da faculdade dizem que “...oras, mas ela estava provocando...”.


A mentalidade dos jovens, de boa parte deles, traz conceitos e idéias que remontam aos mais negros períodos da Idade Média, isso sem falar do perigosíssimo espírito de manada, sempre criticado aqui no Pausa, que toma conta das mentes fracas e ainda pouco desenvolvidas .

Para esses jovens será preciso alterar a letra da música:

“...ainda somos os mesmos e vivemos,
ainda somos os mesmos e vivemos,
a-in-da s-o-m-o-s os meeesmos e vivemos
coooooomo neandertaaaaaaa-a-a-a-ais...”

sábado, 7 de novembro de 2009

CURSO PARA SER DO CONTRA

Estou lendo, simultaneamente, O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodnow, e A Morte da Fé, de Sam Harris.



Sobre o livro do Harris nem preciso dizer nada. Comprei sabendo que ia "chover no molhado" pois já li Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens e Carta a Uma Nação Cristã, do próprio Harris. Não li Deus, Um Delírio porque já li tantas resenhas e comentários que tenho a impressão de já ter lido o livro todo.



Escolho esse tipo de leitura por dois motivos: me divirto e sinto que não estou sozinho no planeta e que há mais gente que pensa como eu. De maneira muito mais elaborada e aprofundada, claro, esses autores fazem as mesmas críticas que eu faço à crença em coisas sobrenaturais. Penso, realmente, como dito no documentário Religulous por Bill Maher, que "...a fé só pode ser uma disfunção neurológica".


O outro livro, involuntariamente, é um apoio científico às questões discutidas nesses citados acima, porém focando outros tipos de crenças.


Eu gosto de iconoclastas e autores que derrubam ilusões. Mlodnow, em seu livro, destrói uma a uma as diversas certezas e afirmações corriqueiras que nos acompanham no dia a dia (não sei se tem ou não hífen aí).


Falácias do tipo "post hoc, ergo propter hoc", ou seja, aquelas afirmações do tipo "isso aconteceu por causa daquilo" são implodidas em suas raízes e ele, doutor em Física pela Universidade de Berkeley, mostra cientificamente como a aleatoriedade e eventos externos imprevisíveis estão muito mais presentes em nossas vidas do que gostaríamos de imaginar.


Vai contra a maioria absoluta das pessoas nesse planeta? Sim, porque "acreditar é mais fácil que pensar. Por isso há muito mais crentes que pensadores" disse Bruce Calvert.





E você, está lendo o quê?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

FINADOS


Ontem foi Dia de Finados.


Cemitérios lotados, muitas flores e velas vendidas fizeram a alegria dos comerciantes nas portas do além.


Como de costume, comecei a pensar nos costumes.


Certa vez, quando comentei com amigos que um fulano mantinha as cinzas de sua mãe na estante da sala, acharam estranhíssimo, tétrico.


Guardar aquelas cinzas limpinhas, esterilizadas pelas labaredas do imenso forno crematório e guardadas numa caixinha ornamental era, para eles, algo que não fariam jamais.


Porém eles, tão assustados com a inofensiva caixinha, não achavam estranho construir uma pequena edificação sobre um buraco onde se escondia o cadáver de um familiar e, pior, mantinham o hábito de ir visitar essa edificação acreditando que ali estaria mesmo um parente e não uma carcaça putrefata consumida por vermes.


E mais: levavam flores e velas para a carcaça, se é que ainda havia alguma e não apenas ossos podres.


Caixinha com cinzas é estranho, buraco com carne podre não. Que gente estranha esses meus amigos...


Em pleno Século XXI, numa cidade caótica e carente de espaço, seria muito mais útil se as enormes áreas ocupadas por cemitérios fossem destinadas a praças ou parques, centros culturais, creches ou , ainda mais prático, estacionamentos.


O hábito de ir ao cemitério é apenas um ritual que, como todos eles, são procedimentos para sintonizar nossa mente num determinado assunto, no caso, um ente querido. Mas poderiam lembrar dele todo dia se tivessem suas cinzas numa caixinha na estante, não necessitando esperar o dia oficial para isso.


Em cinzas esse ritual é muito mais prático pois não ocupa muito espaço, é mais higiênico, não fede, não apodrece, não cria bicho como dizem. Se sua família for grande e fique difícil decidir quem guardará a caixinha, façam rodízio. Cada um fica um pouco com as cinzas e ela seria um bom motivo para reunir as famílias, uns visitando os outros em torno da caixinha. Evitaria o trânsito, o pagamento de flanelinhas para estacionar, os custos de manutenção da vaga, ou melhor, da vala no cemitério, etc., etc.


Visitar túmulo - um amontoado de cimento, tijolos e azulejos (ou mármores para os mais abastados) com um buraco embaixo e carniça dentro, é um hábito arcaico e tão fantasiosamente infantil quanto esperar Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa.


Mas, como na música, ainda viveremos e seremos por muito tempo como nossos pais. Até depois de mortos.