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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A TEORIA, A PRÁTICA E OS DINOSSAUROS



Tenho lido muitos artigos sobre administração, alguns sobre novas técnicas e estilos, outros sobre velhas teorias ainda colocadas em prática. O mais recente colocava a última moda em cheque: o jeitão duro e seco de "Arte da Guerra" do japonês Sun Tzu estaria sendo substituído pelo modo quase budista tibetano de ser, mais amável, colaborativo, equilibrado.

Não sei se as novas teorias substituem modelos já desgastados ou são resultado da observação das práticas em empresas inovadoras e posteriormente teorizadas. Porém, tudo isso parece utopia para um grupo de amigos e para mim também.

Num país em que a imensa maioria das empresas ainda são "familiares", administradas e comandadas por seus donos-fundadores ou descendentes diretos (tb li num artigo), a probabilidade de nos empregarmos numa dessas é grande e foi o que aconteceu aos tais amigos e a mim.

Pelo que relatam esses amigos e pelas experiências que tenho vivenciado, nessas empresas ainda impera o estilo "Senhor de Engenho", no qual o dono-senhorio-proprietário-presidente tem direito de vida e morte sobre todos que adentram o "seu" prédio. Falam o que bem entendem sem absolutamente nenhum superego para frear a língua, criticam duramente funcionários em pleno corredor na frente de todos, despedem e trocam Diretores e alta gerência como trocam de cuecas e vivem reclamando da falta de bons colaboradores e de resultados.

Talvez por estarem imunes às variáveis de empregabilidade, por não precisarem se atualizar para manter o emprego nem ter de se comportar de maneira minimamente civilizada, pois dentro de seu microcosmo tudo podem, esses homens são autênticos dinossauros-rex, pura força bruta e dentes afiados pilotando seus negócios em pleno século XXI.

Há os que tentam minimizar a questão levando em consideração o fato de terem erguido à unha seus impérios, pequenos ou grandes, suportando toda a sorte de reveses pelo caminho e isso os teria moldado dessa maneira. Porém, e isso não há como negar, nessas empresas é possível sentir no ar a tensão, o estresse e, pior, a má educação generalizada no tratamento interno entre os funcionários que copiam o estilo do chefe, que copia o estilo do dono.

Nessas empresas é comum também e possivelmente resultado dessa "formação" de seus donos na escola da vida o foco estar pura e exclusivamente na venda, com todo o restante sendo considerado desperdício. Desse modo, treinamentos internos, ações de marketing e atualização dos sistemas de informática são quase sempre "...bobagens, bobagens! Só pensam em gastar dinheiro! Parece que só eu aqui penso em ganhar algum! No meu tempo a gente saía pra rua e vendia, não tinha nada disso...".

Uma frase jamais esquecerei: conversando com o vice-presidente numa breve pausa durante uma reunião, ele disse que "...o marketing é a validação de preguiça do vendedor. Vendedor que é bom sai e vende, não precisa dessas frescuras".

Como essas empresas passam do meio século de existência e estão em plena forma - ou já tiveram dias melhores mas ainda têm fôlego pra muitas décadas - é extremamente difícil confrontar esses senhores. Mesmo com toda a diplomacia e argumentos estudados, diretores que tentaram são hoje ex-diretores, estão "disponíveis no mercado" ou prestando algum tipo de consultoria.

O alívio é que esses senhores feudais não viverão para sempre, mas o pesadelo recomeça quando um de seus filhos assume seu lugar, pois geralmente é escolhido aquele que mais próximo do pai era, aquele que "aprendeu tudo direitinho, como foi comigo naqueles tempos".

E pensar que Bill Gates, o homem mais rico do mundo, deixou a liderança de seu império (e que império!) por acreditar não estar mais colaborando à altura. Somente uma estrela dessa grandeza poderia se dar ao luxo de tamanha humildade.

Oxalá um dia nossos modernos senhores de engenho percebam que no mundo tupiniquim com todos os seus problemas - a corrupção, os impostos, o custo-Brasil - eles também são agentes do atraso.

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