Aquele momento em que você precisa arejar um pouco...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

TROCAR 6 POR MEIA DÚZIA

Somente nessa semana recebi 4 vezes mensagem com um link para assistir ao vídeo do Pr. Paschoal Piragine Jr sobre as eleições 2010, no qual ele exibe um vídeo (um vídeo dentro de um vídeo, êta metalinguagem...) com alertas à platéia sobre os problemas do país.

Fome, miséria, falta crônica de tudo quanto é serviço básico num país que se diz civilizado, isso sabemos e concordamos com ele.

Apesar do acertadíssimo conselho que dá ao final – NÃO votar no PT nem em ninguém desse partido – há dois pontos que me preocupam: a questão gay e o aborto.

Utilizando as mesmas técnicas dos políticos que critica, o vídeo afirma que a Lei da Mordaça poderá criminalizar àqueles que discordam da prática da homossexualidade. Há graves problemas e equívocos aqui. Em primeiro lugar, a Lei da Mordaça não tem nada a ver com isso. É um projeto de adendo à lei que, originalmente , tem a finalidade de estabelecer sanções àqueles encarregados de investigação, inquérito e processo por divulgação de informação produzida no âmbito de suas respectivas funções, algo muito mais relativo às falcatruas cometidas por funcionários públicos em todos os escalões que com preferências sexuais.

O artigos 3º. e 4º. da lei de 1965 relacionam como abuso de autoridade, entre muitos, quaisquer atentados à liberdade de locomoção, à inviolabilidade do domicilio, ao sigilo da correspondência, à liberdade de consciência e de crença, ao livre exercício de culto religioso, à liberdade de associação, aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício do voto, ao direito de reunião, à incolumidade física do indivíduo, aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício profissional.

A chamada "Lei da Mordaça" acrescenta como abuso de poder atentados à liberdade de manifestação do pensamento, à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem, ao direito de não discriminação, ao direito de ampla defesa e ao contraditório, à proibição da escravidão e da servidão, aos direitos e garantias constitucionais e legais assegurados aos acusados.

Será que é disso que batistas tem medo? De não poderem vociferar contra à liberdade de manifestação (parada Gay), à vida privada (união homossexual), ao direito de não discriminação (deixá-los entrar onde bem entenderem)?

Tem-se aqui um fenômeno não raro hoje em dia: uns exigem o direito de protestar e trabalhar por proibir a prática de outros, ignorando completamente o direito deste outro baseando-se puramente em suas próprias crenças. Oras, se batistas são contra a homossexualidade, então não sejam homossexuais e não admitam em suas fileiras pessoas com essa opção. Mas interferir no direito de escolha do outro e querer impor o ponto de vista de uma religião a praticantes de outras é ditatorial, não acham? É o mesmo que palmeirenses quererem proibir o uso de camisas preto e branco e obrigar a todos vestirem apenas verde.

Ou pior ainda: pessoas como eu, vegetarianos convictos, proibirem o consumo de todo e qualquer tipo de carne no país.

Não é justamente isso – esse tipo de imposição unilateral - que recentemente fez com que até mesmo Hélio Bicudo se voltasse contra o PT de Lula?

Cada religião tem sim toda a liberdade de que precisa para seus cultos e cultores, mas não pode de maneira nenhuma interferir com aqueles que não fazem parte de sua congregação. Conheço ótimas pessoas gays, algumas vivendo com seus pares e não me sinto ameaçado por eles. Minha família não desmoronará por causa das escolhas sexuais de outros. São pessoas cultas, simpáticas, educadas, trabalham, pagam seus impostos, não incomodam ninguém... Não há motivo REAL para não terem direitos tanto quanto eu e você de termos união reconhecida por lei, plano de saúde, etc., etc., etc.

Ainda mais polêmica é a questão do aborto. Afirmo com todas as letras: ela NÃO é uma questão de religião ou crença, NEM científica nem jurídica mas, antes deles, é um problema de saúde pública.

Proibir algo nunca deu bons resultados em lugar nenhum deste planeta, principalmente sobre coisas que tem demanda constante. Muito pelo contrário: dá origem a mercados negros, paralelos. No caso, centenas de milhares de mulheres e crianças morrem anualmente justamente porque o procedimento, proibido, é realizado em clínicas clandestinas. Continuar proibindo o que sempre foi proibido não está ajudando em nada. Não sei qual seria a solução ideal, mas penso que deveria ser permitido e cada um deveria seguir sua própria consciência. Alguns afirmam que o procedimento traz consequencias psicológicas nefastas a quem o pratica. Mas é claro! Imagine você fazer algo que é demonizado pelo resto da sociedade...

Se sua religião é contra o aborto, não faça. Se você tem dúvidas científicas quanto ao início da vida ou questões quanto ao direito do feto à vida, não faça. Mas você NÃO tem o direito de impedir que outros façam e, pior torná-los criminosos por isso. E lembre-se de que não estamos falando de um bebê de três quilos, todo rosinha com covinhas nas bochechas, mas sim de algo menor que seu dedinho da mão e sobre o qual muito discutem, sem chegar a uma unanimidade, os especialistas de todas as áreas. O vídeo mostrado pelo padre, que deveria arder no inferno por mentir descaradamente ao público, é sobre outro tipo de procedimento médico.

Uma coisa é legislar pelo bem estar e ordem social, outra bem diferente é impor crenças, hábitos e costumes de uma facção a todas as outras. É um equilíbrio delicado, uma zona repleta de áreas cinzentas, em algumas questões as fronteiras podem ficar por demais fluidas e não serem muito claras, mas é algo pelo que temos de zelar com absoluto respeito e imparcialidade.

O que falta, de fato, nesse país é educação acima de tudo, muita leitura e respeito às escolhas dos outros. Caso contrário, seguindo como ovelhas o que prega Pr.Paschoal em seu vídeo, estaremos trocando 6 por meia dúzia.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

CENSURA NA ARTE. ARTE?!?

Lady Gaga, a atual foco dos 15 minutos de fama no mundo, já foi criticada de tudo quanto é jeito. O argumento recorrente nas críticas à artista (artista?!?) é que ela não é nada mais que um amontoado de clichês do passado, uma Madonna pasteurizada e fake, que se esforça ao máximo para “causar”, seja lá o que for.

Nos dias atuais, isso não deixa de ser uma estratégia até inteligente. Não importa muito a qualidade do que você faz (e a qualidade artística de Lady Gaga é bastante questionável...), mas sim, como dizem, estar na mídia custe o que custar. Não é nada mais que o antigo “falem bem, falem mal, mas falem de mim”.

Muitas personalidades (Ah! Ah! Ah!) do mundo artístico sobrevivem assim, de estar na mídia.

Ocupando capas de revistas, jornais, blogs, sites, portais, grupos de discussão, Gaga vai ficando em evidência e isso, no final das contas, se transforma em milhões de dólares em sua conta-corrente.

Difícil argumentar contra isso. Afinal, alguns milhões de dólares é o que todos nós gostaríamos de ter, não é mesmo?!

Mas Gaga, tão jovem, deve estar gagá. O tal vestido de carne que usou recentemente é idéia antiga: em abril de 1991 já era exibido como arte na Galeria Nacional de Ottawa, Canadá, um vestido feito a partir de carne crua. Eu mesmo já utilizei fotos de modelos “vestidos” assim numa apresentação ppt que transformei em vídeo e postei no YouTube.

Lady Gaga e seus fãs eram muito jovens à época e quanto aos mais velhos ela deve acreditar que não lembramos das coisas...

Pois é nessa linha estratégica – de “causar” - que eu arriscaria colocar Gil Vicente, o tal artista plástico que desenhou ele mesmo matando Lula, Fernando Henrique, Ahmadinejad e outros em sua série de auto-retratos “Inimigos”.

A imprensa, de modo geral, tem se dedicado à celeuma causada pela tentativa de censurar a exibição desses quadros.

Eu tenho alergia mortal à censura, seja ela de que tipo for. No blog da Cultura e Barbárie há um ótimo artigo de Alexandre Nodari sobre conceitos que envolvem liberdade de expressão, censura e vizinhanças.

Mas, sinceramente, aqueles quadros são arte?

Não estaria o Sr. Vicente (e os organizadores da mostra) apostando num lance desesperado por audiência e, como Gaga, querendo apenas “causar”, uma tática cada vez mais usada numa época em que a hipercomunicação e a hiperinformação nos tornam cada vez mais dispersos?

O que faz com que algo, um desenho, pintura ou escultura, seja considerado arte?

Volta e meia penso sobre isso, leio, escuto, encontro diversos pontos de vista, muitos deles contraditórios, mas nada conclusivo. Já escrevi um post aqui no Pausa sobre isso também.

Arrisco um palpite, que nem é novo: o que faz algo ser considerado arte são as pessoas que as contemplam.

Infindável é a discussão sobre o que é ou não é arte. Mas não há como escapar: conseguir ser visto, chamar a atenção para si, atualmente, é arte finíssima, coisa de mestres.

Gaga e Gil Vicente que o digam.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

VOCÊ VAI DEIXAR SEU CARRO EM CASA?

O próximo dia 22 de Setembro será o tal Dia Mundial Sem Carro.

O objetivo, entre outros, é conscientizar as pessoas sobre a poluição, meios alternativos, meio-ambiente, a vida no planeta e blá, blá, blá...

O real problema de nosso mundo é que nos tornamos a "sociedade do atalho". Sempre que nos deparamos com algum problema sério, real, tomamos a iniciativa mais fácil, preguiçosa e rápida, que invariavelmente se mostra inócua e burra.

Quer fazer algo DE VERDADE pelo ar que respiramos, pelo planeta, pela vida?

Então antes de começar a enviar mensagens a todos sobre deixar o carro em casa saiba que uma matéria do Le Monde mostra que na escala mundial, a criação de gado é responsável por 65% das emissões de hemióxido de nitrogênio (azoto, essencialmente imputáveis ao esterco), enquanto o gado engendra 37% das emissões de metano.

É preciso 4 kg de cereais para produzir 1 kg de frango, e 6 kg de grãos para 1 kg de porco. Este último necessita, além disso, de 4.600 litros de água. Esta quantidade aumenta para 13.500 litros para 1 kg de boi, enquanto apenas 1.000 litros de água são necessários para produzir 1 kg de trigo.

As produções de origem animal - carne, ovos, laticínios - são extremamente poluentes. Os bilhões de toneladas de excreções que delas se originam engendram resíduos nitrogenados nos solos e nos rios. Além disso, a pecuária, por si só, representa 18% das emissões mundiais de gases de efeito-estufa.

Ou seja, uma contribuição para o aquecimento climático que é mais elevada do que aquela dos transportes.

Um outro ponto negativo desta produção é constituído pelo seu próprio consumo. Os pastos ocupam 30% das superfícies emersas, enquanto mais de 40% dos cereais que são colhidos servem para alimentar não diretamente os homens, e sim o gado. Uma vez que as áreas disponíveis são insuficientes para atender à demanda, a criação de gado pode provocar o desmatamento de florestas. Além disso, a pecuária é grande consumidora de matéria-prima e de água...

Resumindo, a produção animal vem sendo objeto de muitos questionamentos. Tanto mais que a Terra, daqui até 2050, terá 9 bilhões de bocas para alimentar.

Você quer MESMO fazer algo pela vida, pelo planeta, pelo meio-ambiente?... Neste próximo dia 22 vá de bike até o resturante vegetariano mais próximo.

FATOS

• No relatório Longa Sombra sobre a Pecuária a ONU conclui que a indústria da carne gera aproximadamente 40% mais gases de efeito estufa do que todos os carros, caminhões, veículos utilitários, navios e aviões combinados do mundo. O relatório afirma que a devastação causada pela indústria da carne é "um dos dois ou três mais significativos fatores que contribuem para os mais graves problemas ambientais, em qualquer escala do local ao global".

• Pesquisadores da Universidade de Chicago determinaram que mudar para uma dieta vegana (que não inclui carnes, nem ovos e nem laticínios) é cerca de 50% mais eficaz em contrapor mudanças climáticas do que trocar um Prius por um carro americano. E de acordo com o Live Earth Global Warming Survival Handbook, "não comer carne" é " a coisa mais simples e eficaz que se pode fazer para reduzir a pegada de carbono".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

NEGÃO

Cães se conhecem uns aos outros e não sabem seus nomes. Acho bom mas, para contar essa outra estória, vamos dizer que ele se chamava Negão.

Quando eu tinha restrições de horários impostas pelo trabalho levava minhas cadelas para passear na praça próxima de casa à noite, após o expediente.

A primeira vez que vi Negão fiquei receoso: grande, magro, sentado num canto escuro da praça, meio descabelado e olhos amarelados, logo me fez lembrar aquelas cenas de filmes de terror em que os olhos de alguma fera brilham no escuro da noite.

Ele se aproximou hesitante, não veio diretamente a nós, circundando o que podia ser um invasor hostil. Fiquei preocupado, pois ele poderia realmente se sentir ameaçado (por uma ferocíssima ShihTzu de lacinhos rosa e uma Schnauzer com a personalidade do Garfield).

Estávamos estudando a situação, olhos fixos um no outro apesar de já ter lido que contato visual pode ser interpretado como agressão. Se é verdade, ele que ficasse com medo de mim.

Curiosas e solícitas demais, sem nenhuma noção de perigo, as duas correram para conhecê-lo. Percebi que ele ficou um tanto incomodado, como que com medo delas. Caminhou em minha direção, fiquei firme e, de repente, ele encostou a cabeça em minha perna (quase em minha cintura) pedindo um afago...

Ficamos amigos.

Continuei encontrando Negão por diversas vezes, inclusive depois que ele se associou a um morador de rua. Tomava conta dos apetrechos do homem enquanto ele ia comprar pinga e salame no bar da esquina.

Brincalhão, corria pela praça solto, livre, sem horários nem obrigações. Ambos dormiam no coreto, mas Negão tomava seu banho de sol diário deitado entre os canteiros floridos. Pena nunca ter me ocorrido bater uma foto com o celular. Acho que ainda não me acostumei a tirar fotos com o telefone.

Quando chegava na praça ele corria em nossa direção e sempre vinha me cumprimentar. Algumas vezes levei ração, mas ele ignorava. Estava mais acostumado a comida de verdade, restos que o sem-teto lhe dava.

Uma vez o vi sozinho, do outro lado da Avenida Matarazzo, muito movimentada. Ele parecia estar querendo atravessá-la, mas estava difícil. Estacionei o carro, fui resgatá-lo, acompanhando-o a pé na travessia da avenida e deixei-o na praça, fechando o portão.

Certo dia, novamente na tal praça para o passeio diário, porém agora sem limitações de horário, encontro o morador de rua arrastando um pesado cobertor. Era Negão ali, sem um pedaço de seu flanco direito, sem vida.

Deve ter sido atropelado, mas o tal senhor insistiu em dizer que foi maldade de alguém, que aquilo era coisa feita com facão, que já haviam dito que iam matá-lo pois ele havia encrespado com alguns cães maiores, com donos, que também freqüentam a praça.

Nunca saberemos.

Adeus, Negão.