Aquele momento em que você precisa arejar um pouco...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

UM ANTIGO CASO DE AMOR

Mudanças de planos, correções de rota, uma viagem e alguns outros empecilhos mantiveram-me longe do Pausa.

Estou envolvido com dois novos projetos e isso toma muito tempo e neurônios, não que eu tenha muitos.

Por causa destes planos, estive revirando velhos arquivos pessoais e achei alguns textos que escrevi há muito tempo. Dois deles foram responsáveis, pelo que me lembro, pelos primeiros incentivos que recebi para continuar escrevendo. São de quando eu fazia "cursinho" para prestar vestibular, algo entre o Paleolítico e o Mesolítico da Era Quaternária...

Aí vai um deles:


UM ANTIGO CASO DE AMOR

É noite.

As pessoas que saíram de seus escritórios já estão em casa e o caos no trânsito acalmou.

Neste inesperado frio mês de maio, com esta garoa fina caindo não consigo deixar de associar a paisagem que tenho à frente com uns velhos filmes noir a que assisti no cinema.

Há mais de meia hora estou parado na famosa esquina da São João com a Ipiranga, debaixo de um toldo de livraria, observando.

Ao contrário de Caetano, não me assusto nem vejo nada de mau gosto neste conjunto de arranha céus, neste asfalto, nas pessoas que passam rapidamente de cabeça baixa driblando os agora poucos carros ainda na rua.

O cinza dos edifícios combina com o negro do céu. As luzes dos postes e dos automóveis são refletidas difusamente no asfalto molhado... Uma visão romântica demais para um lugar que horas atrás era uma verdadeira guerra de buzinas, faróis, gente correndo pra todo lado, trombadinhas também, guardas apitando, lanchonetes transbordando, táxis ziguezagueando, ônibus lotados, estresse.

Alguns, praguejando contra a cidade, fogem para seus sítios ou para as praias nos finais de semana, mas sempre voltam. Não conseguem deixá-la. Eu mesmo já tive horas em que odiei tudo isso e prometi a mim mesmo mudar para o interior. Mas a culpa de todos os problemas não é da cidade, que novidade, mas das pessoas que nela vivem.

Talvez, como num caso de amor, eu esteja cego aos defeitos de meu objeto de admiração. Mas aqui, nesta imortalizada esquina, nesta noite úmida, é impossível deixar de pensar ou sentir-me assim.

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