Aquele momento em que você precisa arejar um pouco...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A SMALL VICTORY

Lê-se muito sobre web 2.0 num país que ainda luta pela inclusão digital.

Em pouquíssimas palavras e numa explicação bem tosca, web 2.0 é a internet - sites, blogs, comunidades, etc. - feitos ou alimentados pelos internautas para os internautas. É a internet colaborativa, democrática, cuja construção sai das mãos das empresas ou instituições e vai para a pessoa comum.

Alguns autores, importando teorias americanas e européias, já alertam para o fato de que a web 2.0 pode colocar em risco empresas que se utilizam de estratégias mais tradicionais de abordagem de seu público.

A explosão de blogs e comunidades virtuais aumenta consideravelmente a disputa pela atenção do internauta. Nesses lugares virtuais, prospects buscam e trocam opiniões das mais variadas, influenciando decisões de compra.

Há sim um universo razoável de consumidores online mas, podem me criticar, não agüento mais ouvir que "todo mundo tem internet". Que está disponível a todos, está, mas daí a dizer que todo mundo tem acesso é, no mínimo, estar completamente alienado à realidade brasileira. Mesmo para os que dizem que "quem interessa está na internet - leia-se possoas que têm dinheiro pra gastar - lembro das mais arrojadas teorias de C.K. Prahalad sobre "
A Riqueza na Base da Pirâmide".

Porém, restringindo-me à parte do mundo que "tem internet", digo que ela proporciona alguns pequenos milagres.

Dia desses participei de um processo seletivo em que pediam que descrevesse o que eu entendia sobre web 2.0. Escrevi um monte de bobagens teóricas e só depois me toquei que... EU FAÇO A WEB 2.0! Eu SOU a web 2.0!

Eu distribuo conteúdo, dou opiniões, influencio em micro-escala (que pode se desdobrar exponencialmente) e até crio produtos no mundo real! Sério.

Tentando manter minha sanidade enquanto curto um período sem trabalho remunerado, comecei a criar camisetas com frases sobre posse responsável de animais de estimação e outras com frases de figuras históricas sobre vegetarianismo. Meu intuito não era ganhar dinheiro com isso. Meu objetivo era apenas divulgar, trabalhando pela conscientização sobre coisas em que acredito. Se essas camisetas fossem usadas nas ruas, seriam outdoors ambulantes divulgando tais idéias.
Por isso, distribuí os layouts em arquivos eletrônicos internet afora, 100% free para quem quisesse imprimi-las.

Aparentemente, ninguém havia dado a mínima...

Dia desses recebi um e-mail de uma ONG - Associação Mato-grossense Voz Animal- AVA, sediada em Cuiabá-MT (
www.avamt.org.) dizendo que receberam, sabe-se lá por quem ou como, meus arquivos, e que "... fizemos camisetas com o tema de seu desenho, "animal não é brinquedo..." e ficaram lindas, uma empresa de medicamentos patrocinou (Discon) primeiramente 100 camisetas, e estamos vendendo a 15 reais. O valor arrecadado será usado para a manutenção do abrigo e outros projetos para a castração de cães e gatos.Queremos - eu e toda a diretoria, enviar-lhe uma camiseta como agradecimento e para o seu acervo".

Não é o máximo!?
Não imagino como isso seria possível sem a internet.

Em tempos de "... Gostaríamos de agradecer seu interesse em participar do nosso processo seletivo. Neste momento não poderemos prosseguir com sua participação..." ou semelhantes um atrás do outro, é uma autêntica
Small Victory, como cantava Mike Patton do Faith No More nos anos 90:

"... A invalidez da derrota
Você pode se dar ao luxo?
Um vencedor ferido
Mas eu manterei minha boca fechada
Isso não deveria me incomodar
Não
Isso não deveria
Não, não
Isso não deveria me incomodar
Não
Isso não deveria

Mas incomoda."

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal a estória das camisetas! Puxa! Fiquei super bem impressionada. Viu só?

Você fazendo a sua parte e a ONG a parte dela! Bacana!

Abração.

robertobech disse...

Rapaz, sensacional essa história. Eu lembro de uma vez, quando entrei numa loja de animais e vi uma calopsita que não tinha os dedos. Ela se equilibrava nas grades em cima de um cotoquinho de perna, enquanto as outras calopsitas pisavam em cima dela.

Rolou aquele "Poxa, que pena que não podemos comprar mais uma, não podemos ajudar". Não podemos uma ova! Dei a idéia de postarmos no orkut sobre o pobre do bicho, e veja só: uma mulher leu o post, comprou o bicho - o qual chama carinhosamente de "Toquinho" - e construiu vários brinquedos especiais para ele, já que não tem os dedos. O bicho tá feliz da vida, volta e meia a dona manda umas fotos pra gente.

Eu mesmo, que faço o Não Seja Medíocre (http://naosejamediocre.blogspot.com/), às vezes tenho a impressão de que os posts são mais para mim mesmo, que não vão servir pra ninguém, mas isso é besteira: é que tanta gente fica indiferente a coisas que realmente importam que ficamos com essa impressão de que ninguém vai se corrigir. Mas é como você disse: a small victory...

José Guimarães disse...

Beleza a idéia da camiseta.
Internet funciona sim, por isso escrevo isso aqui.
Seu texto é muito bom.