Aquele momento em que você precisa arejar um pouco...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

CHURRASQUINHO DE CACHORRO SÓ DEPOIS QUE A VISITA FOR EMBORA



Você já deve ter visto na mídia por aí, se tem algum interesse pelo grande evento esportivo que está por vir – a Olimpíada de Pequim (ou Beijing, que parece nome de doce de festa infantil e talvez por isso adotemos outra grafia) – que os chineses irão temporariamente suspender a oferta de carne de cachorro em seus restaurantes no intuito de não ferir os sentimentos dos turistas estrangeiros.



Isso é engraçado... OK, é trágico, mas falo sobre o raciocínio (a falta dele) das pessoas.
Certa vez, num grupo de discussão sobre direitos animais, criei o maior rebu sobre esse assunto. Os integrantes queriam, de algum modo, criar sanções a produtos chineses e coreanos porque eles comiam cães. Aí eu fiz a pergunta: vocês comem carne de vaca, porco ou galinha? Se sim, qual a diferença destas e da carne de cachorro? (ao ver um bife no açougue você tem ABSOLUTA certeza de qual animal veio?...).As respostas foram iradas, sarcásticas, esotéricas, mas nenhuma foi lógica.

A questão é PURAMENTE cultural.

Arriscando-me a ouvir piadas sem-graça, afirmo que NÃO HÁ ABSOLUTAMENTE DIFERENÇA NENHUMA entre um bicho e outro. Todos são carne, todos sentem fome, frio e medo. Todos
sofrem nos “calabouços” em que são criados, onde passam suas vidas presos para nos servir de
alimento.

Um parêntese: você se chocou com a cena de humanos servindo de pilhas para alimentar as máquinas em Matrix? Veja na foto ao lado como são criados os seus bifes de frango...



Do outro lado do mundo, a vaca é um animal sagrado. Ai daquele que molestar uma delas. Ninguém as come, jamais. Para os indianos somos um bando de ignorantes, brucutus cujas almas nunca evoluirão ou subirão aos céus por violarmos a sacralidade da vaca. Em alguns templos também por aqueles lados são os ratos as divindades. Ninguém pode – nem tenta – feri-los. Vivem em paz, felizes, soltos pelas ruas.



Quem tem razão? Nós, ocidentais, ou os indianos? Não há como determinar isso de maneira universal, extra-cultural, honesta, lógica, sensata, imparcial.

Pouca gente entendeu esse ponto de vista ou, por comodidade, preferiram não pensar muito a respeito. Pensar é um dos mais árduos trabalhos humanos e por isso mesmo são poucos os que se dispõem a fazê-lo. As pessoas querem mudar o mundo mas não querem mudar a si mesmas. Querem que chineses e coreanos parem de comer cães mas não abandonam seus churrascos bovinos de final de semana.

Ser vegetariano não é algo que cobro ou tento impor a ninguém, é um posicionamento exclusivamente pessoal. Mas em Ética vemos que a imparcialidade não é possível. Ela não existe, é uma cômoda auto-ilusão daqueles que temem se posicionar. Desse modo, quem não se posiciona está, automaticamente, tomando a posição da ideologia vigente, da maioria, dando espaço para ela existir tranquilamente.



Há um velho ditado, atribuído por vezes a Confúcio noutras a mestres Zen, que diz:

“Antes de tentar mudar o mundo, dê três voltas ao redor de sua casa”.
Verá que há muito a mudar e perceberá que a mudança deve começar em você, depois no resto.

4 comentários:

Natalia disse...

Adorei o texto, pois, como sempre, seu foco não é usual.
Obrigada por proporcionar esse exercício mental.
Seguindo um ditado não tão "zen"... água mole em pedra dura... não desista do seu Blog... outros leitores vão descrobrí-lo também!

Transgênicos Não! disse...

Gostei muito do seu blog... adorei esse post da China e da carne de cachorro!

Sarah Vervloet. disse...

Adorei a proposta do blog. Com pouco tempo nesse meio de blogs, esse foi único onde percebi crítica insistente a fim de provocar até um desconforto em nós mesmos.

Parabéns. Sempre que puder, voltarei.

Abraço.

gija disse...

uau, ótimo post :)